Scalebound: O jogo que nunca existiu, mas nunca morreu
Dentre tantos cancelamentos, por que esse ainda vive nas nossas cabeças?
Como diria o filósofo e futebolista Neymar Junior: “Saudades do que a gente não viveu”.
Esse é o sentimento em torno de Scalebound, um jogo
que surgiu pela primeira vez num teaser misterioso e modesto na finada E3 de
2014, mas que chamou atenção de imediato. O jogo chegou a receber mais dois
trailers de gameplay, um na Gamescom de 2015 e um último na E3 de 2016,
mostrando o planejado modo co-op.
Meses depois, veio a notícia: em janeiro de 2017 a Microsoft
cancelou o projeto, que era desenvolvido pela Platinum Games. A notícia chegou
como uma bomba na época, várias pessoas alegando que, dentre outros motivos,
haviam adquirido o Xbox One por conta deste jogo em específico. Até hoje, fãs
respondem postagens de executivos da XBOX pedindo o retorno do projeto, e basta
uma busca rápida pelas redes para encontrar vários ensaios, sejam escritos ou
em vídeo, sobre o jogo que deixou saudades, mesmo sem nunca ter existido.
Muito se especulou e várias informações vieram à tona sobre
a razão do cancelamento, ao passo que o próprio diretor do projeto, Hideki
Kamiya, assumiu que o jogo era ambicioso demais e que a Platinum, à época, não
tinha a expertise necessária para entregar um título com campanha extensa, modo
multiplayer, gráficos robustos e boa otimização. Apesar do fim conturbado, a
Xbox mantém uma boa relação com a Platinum, tanto que desta parceria nasceram
outros projetos de sucesso, e o próprio Kamiya já demonstrou vontade em retomar
Scalebound, chegando a marcar Phil Spencer nas redes sociais.
Apesar da Xbox continuar renovando os direitos da marca Scalebound
ano após ano, não há qualquer indicativo de que o projeto irá retornar. E a
razão pela qual ele não retorna, ironicamente, é a mesma que o mantém vivo na
memória dos fãs: na época em que foi anunciado, Scalebound era diferente
de tudo que a Xbox oferecia, um sopro de novidade em um portfólio limitado.
O mundo era muito diferente quando Scalebound foi apresentado pela primeira vez.
Entre 2014 e 2016, a Xbox ainda era uma
plataforma fechada, o Gamepass não existia, haviam poucos estúdios próprios e
quase nenhuma variedade em seu portfólio. A Lionhead, estúdio de Fable, acabava
de ser fechada, e a marca se sustentava em sua trindade: Halo, Gears e Forza.
Scalebound nasce neste contexto como um respiro, um estilo e um gênero que, até
então, não existiam na Xbox. Muitos fãs mantêm na memória o jogo que era, na
época, diferente de tudo que a Xbox fazia, e até hoje trazem esse sentimento
consigo.
Hoje, porém, o cenário mudou radicalmente. A XBOX se tornou a maior publicadora do mercado, se dando ao luxo de até mesmo abastecer outras plataformas enquanto mantém um serviço sem concorrência, e exclusivos selecionados a dedo. A plataforma conta com uma diversidade imensa de gêneros e estilos, indo de metroidvanias e indies criativos até blockbusters realistas e expansivos. Nesse contexto, o título que antes parecia revolucionário provavelmente não teria o mesmo impacto, tornando-se apenas mais um entre tantos outros.
Mas talvez seja justamente esse contraste que mantém viva a
chama da nostalgia: Scalebound representava uma promessa de inovação em um
momento de carência criativa. Ele nunca existiu de fato, mas continua existindo
como símbolo de um desejo coletivo por algo novo, ousado e diferente. E é por
isso que, mesmo cancelado, Scalebound segue sendo lembrado não como um
fracasso, mas como um sonho que os jogadores ainda não conseguiram esquecer.

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